Plano Clima redefine crédito e regras ambientais e pressiona o agronegócio

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Lançado pelo governo federal nesta segunda-feira (16.03), o Plano Clima inaugura uma nova etapa da política ambiental brasileira com impactos diretos sobre o agronegócio. Embora não imponha obrigações imediatas dentro da porteira, a estratégia reorganiza o fluxo de crédito, sinaliza novas exigências de mercado e amplia a pressão por eficiência produtiva no campo.

Com meta de reduzir entre 59% e 67% das emissões de gases de efeito estufa até 2035, tendo como base os níveis de 2005, o plano se consolida como eixo estruturante das políticas públicas voltadas à transição para uma economia de baixo carbono. O objetivo final é alcançar a neutralidade climática até 2050, alinhando o Brasil aos compromissos internacionais assumidos em fóruns como o Acordo de Paris.

Na prática, o desenho do programa reorganiza instrumentos já existentes. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social deve ampliar a operação de recursos do Fundo Clima, com direcionamento prioritário a projetos de menor impacto ambiental. Para 2026, estão previstos mais de R$ 33 bilhões em recursos, sendo R$ 27,5 bilhões em linhas reembolsáveis operadas pelo banco.

O efeito mais imediato para o produtor tende a vir justamente pelo crédito. Tecnologias como recuperação de pastagens degradadas, integração lavoura-pecuária-floresta e manejo mais eficiente do solo passam a ter acesso facilitado a financiamento. Em contrapartida, a tendência é de maior rigor na concessão de crédito para sistemas que não comprovem práticas ambientais adequadas.

Além do financiamento, o plano reforça um movimento já em curso no comércio internacional. A exigência por rastreabilidade, controle de origem e comprovação de regularidade ambiental avança, especialmente em mercados europeus. A adequação a esses critérios tende a se tornar condição para manutenção e expansão das exportações brasileiras.

A estrutura do Plano Clima está dividida em três eixos principais. O primeiro, de mitigação, reúne oito planos setoriais voltados à redução de emissões em áreas estratégicas da economia. O segundo, de adaptação, contempla 16 planos focados no aumento da resiliência, com destaque para agropecuária, cidades e infraestrutura. Já o terceiro eixo trata de estratégias transversais, como inovação tecnológica, justiça climática e transparência.

No campo, o impacto também se conecta à agenda de adaptação. Eventos extremos — como as enchentes no Rio Grande do Sul e as secas na Amazônia — elevaram o risco da atividade rural e aceleraram a necessidade de sistemas mais resilientes. Nesse contexto, instrumentos como seguro rural e tecnologias de mitigação de perdas tendem a ganhar protagonismo.

Para Isan Rezende  (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros agronomos de Mato Grosso (Feagro-MT), o plano traz um sinal claro de mudança no ambiente de negócios.

“O produtor precisa entender que o crédito, daqui para frente, estará cada vez mais vinculado a critérios ambientais. Não é uma imposição imediata, mas é uma mudança estrutural que já começou”, afirma.

Segundo ele, a transição pode gerar ganhos de eficiência, mas exige planejamento e previsibilidade. “Há espaço para aumentar produtividade com menor impacto, principalmente com tecnologias já conhecidas. O problema é o custo de implementação e a necessidade de apoio consistente para que o produtor consiga fazer essa migração sem comprometer a renda”.

Rezende também chama atenção para o risco de perda de competitividade caso a adaptação não ocorra no ritmo exigido pelos mercados. “O Brasil é um dos principais fornecedores globais de alimentos. Se não acompanhar as exigências de rastreabilidade e sustentabilidade, pode enfrentar barreiras comerciais. O Plano Clima aponta essa direção, mas a execução precisa considerar a realidade do campo”, completa Rezende.

O texto final do plano foi elaborado ao longo de um processo iniciado em 2023, sob coordenação do Comitê Interministerial sobre Mudança Climática, envolvendo 25 ministérios. O lançamento ocorre após meses de negociações com o setor agropecuário, especialmente em torno das projeções de emissões atribuídas à atividade.

Sem impor mudanças imediatas, o Plano Clima funciona como um vetor de transformação. Ele indica que o acesso a crédito, a inserção em mercados e a própria viabilidade econômica da produção estarão, de forma crescente, condicionados a critérios ambientais — uma mudança que, na prática, já começou a redesenhar o agronegócio brasileiro.





Fonte: Pensar Agro

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