O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) anunciou o início de uma nova fase do Programa de Assistência Agrícola (Farm Bill Assistance – FBA), que prevê a liberação de US$ 12 bilhões em apoio a produtores norte-americanos afetados por preços baixos de commodities e por disputas comerciais internacionais. Do total, cerca de US$ 11 bilhões serão pagos diretamente aos agricultores, com depósitos previstos até 28 de fevereiro de 2026.
Segundo o USDA, os pagamentos serão calculados com base na área plantada em 2025, nos custos de produção e nos dados oficiais de oferta e demanda do próprio departamento. As taxas de pagamento por acre já foram divulgadas, permitindo que os produtores americanos utilizem esses valores como referência para financiamento e planejamento da safra de primavera no país.
O programa contempla uma ampla lista de culturas estratégicas, incluindo milho, soja, trigo, algodão, arroz, sorgo, cevada, aveia, amendoim, girassol, canola, gergelim, entre outras. Na prática, trata-se de um instrumento de sustentação de renda que reduz riscos ao produtor e garante previsibilidade em um momento de margens apertadas.
O que muda no tabuleiro global
Para o mercado internacional, a iniciativa reforça a capacidade dos Estados Unidos de manter ou até ampliar sua produção, mesmo em cenários de preços deprimidos. Com parte do risco absorvido pelo Tesouro americano, o produtor dos EUA consegue comercializar com mais flexibilidade, aceitar preços mais baixos no curto prazo e preservar participação nos mercados globais.
Esse movimento tem impacto direto sobre países exportadores concorrentes, como o Brasil. Em commodities como soja, milho, trigo e algodão, o subsídio indireto tende a aumentar a oferta global e pressionar cotações, especialmente em momentos de safra cheia no Hemisfério Norte.
Reflexos para o produtor brasileiro
No Brasil, onde o produtor opera sem programas de auxílio direto dessa magnitude, a medida amplia a assimetria competitiva. Enquanto o agricultor americano conta com apoio financeiro previsível, o produtor brasileiro enfrenta custos elevados, juros altos, risco climático e oscilações de mercado praticamente sem colchão de proteção.
Além disso, o anúncio do FBA chega em um momento sensível, com margens já comprimidas no campo brasileiro e maior cautela no acesso ao crédito. A sustentação artificial da produção americana pode retardar reações de preço no mercado internacional, dificultando recuperações mais rápidas das cotações que ajudariam a recompor a rentabilidade no Brasil.
Impacto sobre decisões de plantio e mercado
Para as tradings e o mercado global, o programa sinaliza continuidade de oferta robusta nos Estados Unidos em 2026, o que tende a influenciar prêmios, fluxos comerciais e estratégias de originação. Para o produtor brasileiro, o recado é claro: o ambiente de competição internacional segue duro, com concorrentes apoiados por políticas públicas consistentes.
Ao mesmo tempo, o anúncio reacende no Brasil o debate sobre instrumentos de mitigação de risco, seguro rural, crédito mais acessível e políticas de apoio à renda agrícola — não como subsídio direto, mas como mecanismos de equilíbrio diante de um mercado global cada vez mais assimétrico.
Segurança de produção como estratégia de Estado
Ao garantir previsibilidade ao agricultor, os Estados Unidos deixam claro que tratam a produção de alimentos como tema estratégico de Estado. Para o agro brasileiro, líder global em várias cadeias, o desafio é competir em produtividade e eficiência, mas também cobrar condições mínimas de segurança econômica para continuar investindo, produzindo e sustentando a oferta global de alimentos.
Em um mercado onde grandes players protegem seus produtores, decisões como a do USDA acabam indo muito além das fronteiras americanas — e impactam diretamente o dia a dia, o caixa e o planejamento do produtor rural brasileiro.
Fonte: Pensar Agro